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22 de outubro de 2009

Lembrança triste.


    Vaga, no azul amplo solta,
    Vai uma nuvem errando.
    O meu passado não volta.
    Não é o que estou chorando.

    O que choro é diferente.
    Entra mais na alma da alma.
    Mas como, no céu sem gente,
    A nuvem flutua calma.

    E isto lembra uma tristeza
    E a lembrança é que entristece,
    Dou à saudade a riqueza
    De emoção que a hora tece.

    Mas, em verdade, o que chora
    Na minha amarga ansiedade
    Mais alto que a nuvem mora,
    Está para além da saudade.

    Não sei o que é nem consinto
    À alma que o saiba bem.
    Visto da dor com que minto
    Dor que a minha alma tem.

    Fernando Pessoa, 29-3-1931

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