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17 de setembro de 2012

Siena, Itália.

Mais um domingo em Brasília e meus dias aqui vão aumentando gradualmente enquanto o tempo passa. A saudade vai aumentando e aos poucos voltamos a realidade. A realidade nua e crua de quem vive em uma cidade como Brasília, que volta aos problemas de um país emergente, onde um universitário trabalha enquanto estuda, onde alguns trabalham sem nunca terem estudado, onde uns se contentam com o mínimo que o governo dá, mas que no final das contas sai todo mundo feliz e satisfeito por que estão todos vivos e há comida na mesa.
A saudade vai vindo e algumas memórias vão ficando mais distantes, mas nunca inexistentes. Siena ainda está por vir, fazendo chegar um dos últimos momentos na Itália e nos levando a um dos lugares mais lindos que já fui, o Val d'Orcia. 
Depois de Arezzo e o por-do-sol, chegamos em Siena. Siena, papel de tantas histórias no mundo, foi cenário de uma parte da minha história também, começando por uma janta que posso chamar de programa de índio (para italianos que não compreendem o termo, programa de índio é o que chamamos de um evento, no qual não dá muito certo ou não é muito confortável, como por exemplo a trilha do aeroporto). Como estávamos mortos de fome (novamente) não queríamos perder tempo procurando restaurantes baratos no centro da cidade, até por que já era domingo a noite e a probabilidade era de que tudo estava fechado, então paramos no primeiro restaurante que achamos que por sinal, era muito bonito, elegante, cara de restaurante francês e claro, cara de restaurante caro. Foi caro, pouca comida que nem eram das melhores, porém, fomos elegantes, pagamos a conta e levamos uma garrafa de vinho toscano de brinde no final (eles entenderam que éramos viajantes quebrados e nos deram de presente uma garrafa de vinho caro). Claro que agora eu tenho medo de voltar na cidade, a pessoa se lembrar de mim e querer de volta o que me foi dado.
O centro histórico de Siena é lindo e foi declarado patrimônio da Unesco e é um dos lugares mais visitados do mundo. A praça redonda que é enorme, toda em pedra e que vai descendo uns níveis até chegar em uma boca de captação de águas da chuva (foi assim que interpretei), dá espaço a vários turistas e estudantes e passarem ali algum tempo, apreciando a arquitetura, a história do local, fazendo-nos refletir quantas vidas por ali já passaram, quantos amores ali foram vividos, quantos Palios foram corridos, quantas lutas ganhas..... Se tratando de uma cidade que surgiu no século V, imagina-se muita coisa, mas não o suficiente. 
Passamos um bom tempo durante a noite de domingo refletindo sobre isso e vendo o tempo passar devagar, alguns estudantes também faziam isso, alguns poucos turistas como nós, outros ficavam pelos bares e cafés que havia ao redor da praça. Enquanto eu e Anita dávamos uma caminhada entre ruas e lojas fechadas, ouvíamos burburinhos dos italianos mais assanhados e descobríamos coisinhas muito interessante pelas ruelas medievais.
Mais uma noite dormida no carro e lá vamos nós desbravar Siena que tinha as lojas fechadas pela manhã de segunda-feira pelo simples fato de ter sido domingo no dia anterior. A lavação matinal foi toda feita na Universidade de Siena (hahahaha) e foi tudo bem tranquilo e bom. Apesar de uma certa informalidade de alguns que não pareciam estar ali, foi tudo bom como toda a viagem.
O único dia de toda a viagem que o tempo chegou perto de fazer um frio ou algo do tipo foi este, o céu ficou nublado, cinzento, caiu algumas gotículas de água, mas nada que virasse chuva de verdade, o friozinho rendeu uma soneca no parque e por aí ficou.
Entre passeios, chuviscos, muitas lojinhas lindas, pizzas, praças, fonte falante, biscoitos caros, vinhos roubados, o brechó mais lindo do mundo, igrejas e mais igrejas, tiramos uma soneca em um parque e demos adeus a Siena.
É, eu sinto falta de uma cidade assim, tendo como minha realidade uma cidade modernista eu sinto muita saudades de uma cidade como Siena e várias outras cidades europeias...E assim foi acabando o tempo na Toscana.

Vista de uma janelinha qualquer da universidade











































9 de setembro de 2012

Sutileza de um momento, Siena.

A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canária.
Passagem das Horas, Álvaro de Campos

Para mim este foi um dos momentos mais lindos desta viagem, no qual tive a experiência de pôr-do-sol mais incrível da minha vida, porém está sendo muito difícil escrever nestes últimos dias e peço ajuda a meu querido Fernando Pessoa, que transmite com tanta sutileza e poesia todos os momentos de sua vida, desde os mais obscuros até os mais singelos. Eu aprecio o modo como escreve e entendo o sentimento de cada linha. É complicado dizer o porquê, eu sinto muitas saudades de tudo e as lembranças vão transbordando a cada segundo me fazendo sentir nostálgica e por vezes completa, porém neste mesmo tempo é difícil traduzir em palavras todos este turbilhão de sentimentos e mudanças. Não que isto seja uma obrigação de se fazer, mas gosto de passar para frente minhas experiências e mesmo assim, me agrada escrever sobre o tempo.
Chegamos em Siena na hora mais interessante do dia, a hora que mais gosto, o momento em que mais uma vez o dia vai indo embora, nos lembrando de que o tempo passa e que a noite chega, indo devagar e abaixando a graduação de luz que ilumina a terra. O lugar não descrevo com palavras, mas é só imaginar uma vila na Toscana de filmes, onde se tem uma casa enorme feita de pedra amarelada com janelas e portas de madeira, um lindo jardim na frente, pomar de pera, pêssego, ameixa e outras frutinhas que tivemos o prazer de comer direto do pé, uma alameda de árvores e uma vista incrível da cidade (é a casa que quero morar). De lá era possível ver a perfeita silhueta de Siena e os últimos raios de luz batendo no mato amarelo que o fazia reluzir como ouro. As luzes da cidade iam ascendendo aos poucos mostrando que a cidade ainda no domingo ainda respirava e nós quatro ali, no meio do mundo, sentindo cada pedacinho de vida que existe, sentindo a brisa fresca no rosto que trazia consigo um doce odor de relva, vendo o sol se despedir e sentindo uma pequena plenitude do ser. Ali ficamos quase duas horas, admirando a paisagem, trocando energias, trocando palavras e absorvendo cada segundo deste momento único que ia passando aos poucos sem nosso consentimento.
Foi especial, único, belo e por isso merece um post unicamente para ele. As fotos foram poucas, mas como o momento foi eternamente gigantesco, poucas imagens conseguem mostrar uma ponta do que foi/é.












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